ORLANDO NEVES, org. e pref.
Lisboa, s.d. [1978]
Edições Saber Porquê
[1.ª edição]
23 cm x 16 cm
80 págs.
profusamente ilustrado
exemplar estimado; miolo limpo
25,00 eur
Livro publicado como protesto pela permissão do regresso de Américo Tomás a Portugal. Palavras de Orlando Neves no seu texto introdutório:
«Nenhum processo foi instaurado, após o 25 de Abril de 1974, contra o homem que, durante quase dezasseis anos ocupou o cargo do “mais alto magistrado da Nação” (fórmula preferencial do fascismo para designar o Chefe do Estado) e daí que o actual Presidente da República por razões, ao que parece, “humanitárias”, lhe permita o regresso a Portugal, após a sua expulsão do Continente na noite de 25 para 26 de Abril de 1974. Se, obviamente, espanta qualquer português antifascista a decisão de permitir o regresso de Américo Tomás (e não foi espantoso também que, tanto ele como Marcelo Caetano e outros, comodamente tivessem sido instalados na Madeira e, depois, generosamente enviados para o Brasil?!), o que realmente assombrará a História será o facto de o regime democrático, pós 25 de Abril, jamais se ter lembrado de acusar A. Tomás de algo que o fizesse comparecer na barra dos tribunais. Como se um homem que, ao longo da sua carreira militar, e mais tarde, política, deu cobertura e aval a todos os crimes contra a liberdade cometidos durante os consulados de Salazar e Caetano, pudesse ser equiparado ao mais inocente ou inócuo dos cidadãos! Como se A. Tomás não tivesse sido, organicamente, o mais responsável de todos os fascistas que nos governaram! Como se a ele, pela qualidade do cargo que desempenhou, não devesse ser assacada a responsabilidade de crimes comuns em que avultará o assassínio de Humberto Delgado, o seu opositor nas urnas em 1958, que, pelo menos, permitiu ficasse sem investigação nem julgamento! Como se A. Tomás não tivesse sido Comandante-em-Chefe de umas Forças Armadas em guerra e, como tal, permitido ou ocultado os massacres da guerra colonial! Como se A. Tomás não tivesse, em tudo isto, exercido o crime de “abuso de poder” que uma Constituição, que ele permitiu fosse completamente desrespeitada, previa! Como se A. Tomás não fosse o garante de um regime moralmente condenado por todas as forças democráticas do mundo e, inclusivamente, pela ONU!
É evidente que muita matéria deveria haver – pensaria o cidadão comum – para que A. Tomás, a regressar a Portugal, o fizesse directamente para a prisão.
[...] Com que direito se aduzem “razões humanitárias” a favor de um homem que, conscientemente, sempre as esqueceu no que respeitava aos outros?!...
E assim ficamos perplexos. Como foi possível passarem-se quatro anos (e não esqueçamos que não houve ainda prescrição para os crimes de que A. Tomás poderia ser acusado) sem que o ex-almirante tivesse sido questionado em tribunal?! [...]
Resta, aos antifascistas, o protesto. E esse protesto pode ser vário. O que pretendemos neste pequeno livro, para além de tudo o que aqui fica dito, é recordar, episodicamente, um homem que “à frente dos destinos da Nação” (outro
cliché do Estado Novo dolorosamente verdadeiro) se revelou um convicto e feroz fascista através de uma personalidade que, mais que teórica, se nos mostrou ridícula, sem deixar de ser repressiva e policial. Muito mais que criador de palavras de ordem (coisa em que Salazar era perito) A. Tomás simbolizou em si um
estado cultural conservador, antiprogressista, reaccionário, retrógado, limitado, raiando a idiotice (é exemplar a sua frase, que consta deste volume, a propósito de Salazar: ... “a Providência poupou-o à visão bem triste do mundo de hoje, que o progresso ajudou a alucinar”).
Não admira, portanto, que se o “mais alto magistrado da Nação” era aquele que as fotos e as frases de sua autoria recolhidas neste livro nos revelam (em breve antologia), o povo que o fascismo dominava havia de ser mantido ao menos a esse nível cultural. Este um ponto é importante. O fascismo só sobreviveu durante 48 anos porque tudo se fez para manter o povo na ignorância e estupidificação através de uma catequese pertinaz das forças políticas da época em que teve papel preponderante, como exemplo e mentor, A. Tomás. [...]»
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