terça-feira, julho 19, 2016

As Minhas Memórias – Coisas de Tempos Idos



CUNHA LEAL

Lisboa, 1966, 1967 e 1968
Edição do autor
Livraria Petrony [depositário]
1.ª edição
3 volumes (completo)
vol. I – Romance duma época, duma família e duma vida de 1888 a 1917
vol. II – Na periferia do tufão. De 1 de Janeiro de 1917 a 28 de Maio de 1926
vol. III – Arrastado pela fúria do tufão. De 28 de Maio de 1926 a 4 de Dezembro de 1930
21,8 cm x 15,8 cm
372 págs. + 480 págs. + 432 págs.
exemplares muito estimados; miolo limpo, vols. 1 e 3 por abrir
60,00 eur (IVA e portes incluídos)

É toda a História nacional de uma época de grandes convulsões o que temos aqui patente, pela mão de um dos seus protagonistas. Há que sublinhar à cabeça a limpidez literária de exposição com que o Autor nos reporta o que, sendo ele governador do Banco de Angola, o tornou um dos mais notáveis e recalcitrantes opositores à ditadura salazarista. Obra de crucial importância para se perceber como essa oposição à política posta em marcha por Salazar / Quirino de Jesus teve raízes muito para além do conveniente “papão comunista”, e como os ajustes de contas eram distribuídos a torto e a direito por quem quer que, mesmo com razoabilidade, fizesse frente à “direcção única”. E foi nessa qualidade de governador que Cunha Leal, ao recomendar políticas económicas diversas – numa conferência pública proferida na Associação Comercial de Lisboa em 1930, expondo a degradante situação financeiro-produtiva de Angola – acabou por vir a conhecer, sob pretextos vários, «em fases sucessivas, o cárcere e a deportação, com o seu cortejo de violências».
Algumas passagens genéricas:
«[...] estamos sendo arrastados pelo ciclone que teve a longínqua origem em 28 de Maio de 1926. Na sua fase hodierna, os nossos Poderes Públicos já se não limitam a subordinar os graus de liberdade da pessoa humana e os seus correlativos movimentos físicos às determinações dum ditador que a si próprio e talvez – quem sabe? – com sinceridade se alcunhe de paternal, por isso que pretendem impor-nos obediência à fórmula tradicional do misticismo jesuítico – faz o que eu mande, pensa o que eu pense, quer o que eu queira. Irromper pela interioridade deste tufão a expressar desacordos e oposição venho-o fazendo ao longo de quarenta anos e ainda perduram no meu corpo e na minha alma as mataduras desse inconformismo. [...]
A minha presente tentativa explica-se, pura e simplesmente, pela ânsia de concorrer para a salvação duma nau preciosa prestes a naufragar, ou seja Portugal, já sem tripulação susceptível de grandes e oportunas reacções, num alheamento duma mística salutar.
Como é que se conseguiu efectivar esta descomunal constrição duma grei inteira, de modo a convertê-la em rebanho pávido, sorumbàticamente submisso, incapacitado, pelo menos na aparência, para os movimentos das gentes, que, em todas as emergências, sabem preservar a noção de dignidade? Em boa verdade, não havia, de início, um plano metódico de domesticação colectiva. Havia apenas – isso, sim – o firme intuito do reaccionarismo indígena de suscitar, com o apoio extorquido ao Exército por meios capciosos, um vendaval à custa de cuja força crescente se lhe tornasse possível varrer da superfície de Portugal os mais ligeiros resquícios de democracia, sempre com os olhos fitos, avidamente, na ressurreição, embora longínqua, da Monarquia de estirpe miguelista. [...]
Em que é que consistiu, por conseguinte, o mais valioso trunfo do seu sucesso? Em ter às suas omnipotentes ordens um Exército passivamente obediente para impor o seu receituário financeiro, acertado ou desacertado, sem prévia audiência do País e sem vislumbres de respeito pelos interesses colectivos, ainda quando absolutamente legítimos. A regra de conduta social passou a ser a seguinte: manda quem pode, obedece quem deve. [...]
Quem, neste ano já distante de 1967, meditar, porém, na tragédia angolana desencadeada em princípios de 1961, se for desprovido de cegueira partidarista, haverá de chegar, por certo, à conclusão de que a longínqua génesis desse fenómeno deva ser retrotraída aos erros iniciais de visão do Ditador português no tocante às directrizes da nossa política ultramarina, erros que, em 1930, me afoitei a obstaculizar, sem – ai de mim e ai do País! – ter força bastante para isso... [...]»

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