quarta-feira, março 08, 2017

Mátria

NATÁLIA CORREIA

Lisboa, 1968
[ed. Autora ?]
Tip. Rios & Irmão, Lda.
1.ª edição
20,6 cm x 14,9 cm
24 págs.
acabamento com um ponto em arame
exemplar manuseado mas com o miolo muito limpo
peça de colecção
160,00 eur (IVA e portes incluídos)

É o conjunto de poemas mais desabridamente violento da literatura portuguesa. Nenhum sarcasmo – apenas ódio ao triunfo do mal.
Uma passagem:
«[...]
Os sonhos vão erguer-se sobre as patas traseiras
e as árvores gritar o seu direito ao voto
não mais o iceberg de sanguessugas
flutuando no peito do soldado
nem crocodilos sob os pés do homem
como perseguir-se em trífide num sonho
com sua asma de comboio atrasado

Não mais pasta amarela de tiranos na boca
não mais bilis de deus não mais veneno
no copo da carícia preferida
não mais nascermos para corda de roupa
íntimas peças da morte penduradas
a todo o comprimento de puxarmos
a carga insone de uma alheia vida

Não mais fraque de pedra de corpos espiados
Vai ser o tempo de florirem as letras
no livro das mulheres perfeitamente nuas
não mais ignorantes como sábios
os sonhos vão soltar seus pombos de água pura
o rio de Anaíta a molhar-nos os lábios

Vai ser o dia de despejo dos ilustres
a quarta-feira da cinza dos solenes
o Maio da Matrona vai ser a Páscoa dos amantes
que vão trepar a música das árvores
até que o céu se banhe na nascente dos seus lustres
até que um cuco saia do relógio das veias
anunciando que a bilha do teu sono se quebra
e outra vez te espalhas poeira de diamantes
oh sol que te levantas com braçadas de ovelhas
Anaíta oh vontade de sermos semelhantes

Vai ser no ano dois mil soluços do teu filho
oh Madre de algodão nas feridas da esfera
Primavera de naves à velocidade riso
vai ser o estado Anaíta da matéria [...]»

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