segunda-feira, julho 03, 2017

Realidade Branca [junto com] Hibou [dactiloescrito inédito]



RAUL DE CARVALHO

Lisboa, 1968
Edição do Autor
1.ª edição
[16,7 cm x 11,2 cm (livro)] + [27 cm x 20,9 cm (folha)]
88 págs. + 1 folha dactilografada (não assinada)
composto manualmente e impresso sobre papel superior na Tipografia Ideal sita à Calçada de São Francisco em Lisboa
exemplar estimado, capa suja; miolo limpo
tiragem declarada de apenas 513 exemplares, 113 dos quais fora do mercado
valorizado pelo cartão com dedicatória manuscrita do Autor ao encenador, músico, advogado e membro da Amnistia Internacional [Luís Manuel Ceia de] Sande Freire
135,00 eur (IVA e portes incluídos)

Raul Maria de Carvalho nasceu no Alvito (Baixo Alentejo) a 4 de Setembro de 1920, filho de pais de condição humilde, vai revelar-se um importante poeta urbano da vida quotidiana na sua simplicidade imediata. Entre o bastante que nos legou, devemos-lhe também a criação da revista Árvore (1951 a 1953), que co-dirigiu com os poetas António Ramos Rosa, José Terra, Luís Amaro e Egito Gonçalves. Sucumbiu na véspera do aniversário a 3 de Setembro de 1984.
Dentro do vertente livro – além do cartão para Sande Freire – encontrava-se o poema inédito Hibou, que será um dos muitos de que Maria Luísa Leal dá notícia no seu texto «Notícia Biográfica Sobre Raul de Carvalho» (in Obras de Raul de Carvalho, Editorial Caminho, Lisboa, 1993), hoje cada vez mais dispersos por coleccionadores desconhecidos ou não referenciados: «[Raul de Carvalho] Deixa inédita boa parte de uma extensa obra poética.»
Transcrição diplomática:

HIBOU

Cidade cheia de recordações.
Passo uma rua, e outra, e outra
e em todas elas e em nenhuma delas,
eu habitei.
Aquele quarto, ali, o que me diz?
Estavas deitado, morto.
Estavas deitado, lendo.
Estavas deitado, acordando
com um sorriso para mim.
Eras – ou já não eras? – criança.
Navegavas, inerte, pelo mundo.
Sòzinho viajavas pelo mundo.
Tinhas o mundo dentro de ti.
As gentes, as diferentes falas, as distintas formas de um único amor.
E tu as soletravas. Deitado. Esperando.
Tu as harmonizavas dentro de ti.
[linha cortada]
E o mundo já não era igual ao que tu vias.
E nada era verdadeiro. O que sentias, tu?
Disformemente irregular cidade morta.
Nunca.
Enroscou-se a serpente no teu corpo.
Sugou-te o sangue. Esvaziou-te a alma.

23-III-67.

pedidos para:
telemóvel: 919 746 089