terça-feira, agosto 01, 2017

Português, Trabalhador, Doente Mental


MARIA DE FÁTIMA BIVAR VELHO DA COSTA
capa de Henrique Ruivo

Lisboa, 1976
Empresa de Publicidade Seara Nova, S. A. R. L.
1.ª edição
20 cm x 14,3 cm
168 págs.
exemplar estimado, capa manchada; miolo limpo
25,00 eur (IVA e portes incluídos)

Diz a escritora Maria Velho da Costa, aqui no exercício da sua licenciatura em grupo-análise e neurologia:
«A [...] designação inicial [do vertente trabalho] que, de humilde, passou no decorrer do tempo a demasiado ambiciosa[,] era: “Estudo Experimental: Doença Mental e Indústria”[,] e deveria processar-se no âmbito das actividades de investigação em Ciências Humanas Aplicadas à Indústria do Serviço de Produtividade do Instituto Nacional de Investigação Industrial do Ministério da Economia. O sujeito do dito estudo seria eu, funcionária do organismo referido. O objecto seria uma amostra reduzida de trabalhadores da Indústria submetidos ao foro do Ministério da Saúde, após devidamente ratificados pelas autoridades competentes como doentes mentais. Até aqui, tudo parece claro, pois que nada inquieta se só atentarmos aos nomes cordatos que se lhe der. Só que o real que esses nomes ocultam não é ludibriável, e, ao mergulharmos na sua espessura, ao ressentir-lhe como monstruosas as contradições, ao averiguar-lhe da génese, certas designações e a trajectória e atitudes nelas implícitas nos parecem risíveis, senão totalmente monstruosas. [...]»
E após dois anos de captura de informações dentro do Hospital Miguel Bombarda, de 1972 a 1974, dois anos, dos quais «[...] jamais [lhe] trouxeram habituação ao sentimento de sordidez e abjecção [...]» perante aquilo que Velho da Costa viu, conclui:
«[...] O meu estar ali sempre foi determinado pela percepção inicial de que aquele era um dos lugares onde a sociedade escondia e punia os seus membros atingidos do maior mal – a incapacidade de vender a sua força de trabalho, a incapacidade de conformar-se aos valores ideológicos que a classe dominante lhes impunha: trabalho alienante, troca de afectos pobre, resignação, passividade. [...]»
Na leitura dos inquéritos assim coligidos por Velho da Costa, fica-se com a certeza de como a sociedade portuguesa, no seu conjunto ocultando-se atrás de procedimentos institucionais, era a perfeita réplica de uma espécie de estilinismo, se bem que com a bênção da religião oficial, onde pontuavam as prisões políticas, os confessionários e os manicómios.

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