JOSÉ CARDOSO PIRES
prefácio de Eduardo Lourenço
fotografias de Eduardo Gageiro
Lisboa, 1980
Moraes Editores
1.ª edição
19,8 cm x 14,1 cm
160 págs.
ilustrado
exemplar estimado, capa manchada; miolo limpo
30,00 eur (IVA e
portes incluídos)
No notável texto de abertura, afirma Eduardo Lourenço:
«[...] Sob o desfile unanimista do l.º de Maio de 1974, quem tivesse
colado o ouvido ao asfalto de onde o rumor exaltante subia, teria surpreendido
um silêncio singular. Escutando melhor, teria percebido até que esse universal
rumor era quase só esse silêncio, com cinquenta anos
de espessura, antigo silêncio dissolvido na alegria do presente como açúcar.
Num só dia, a bondade dos nossos costumes apagara os gritos estrangulados de
meio século, os cadáveres escamoteados, as noites sem pálpebras, a vergonha de
ter um rosto de homem numa paisagem deserta de olhos para aceitar com a
naturalidade do nascer do sol e da luz do dia. Todavia, por essa hora, se havia
esperado-desesperado para saber,
sobretudo para proclamar, enfim, a Verdade, ou antes, a sua atroz inversão. Os surdos
voluntários, os cegos de olhos extasiados, os executores da sombra, os peritos
em terror seráfico, os caluniadores impunes seriam então tardiamente iluminados
pela revelação da sua inumanidade cultivada, envergada como um fato de domingo
para a glória e honra da antiquíssima, venerável e santa Ordem Moral. Da sua
noite, cegos sem metáfora, silenciados a cavalo-marinho, crucificados contra os
muros da vertigem, sombras recortadas apenas pela lembrança dos vivos, sairiam
num cortejo sem ódio para exigir uma desculpa, e os menos inconformados, uma explicação.
Era esquecer que a longa noite partilhada pelos carrascos e as vítimas havia tido
tempo de converter uns e outros em fantasmas destinados a mudar de forma e
consistência, por vezes a trocar de lugares quando chegasse a hora da
libertação. A hora chegou, mais do que tardia, póstuma. Quando as vítimas se
voltaram para ver melhor o rosto dos seus suaves algozes não havia ninguém.
Nunca tinha havido ninguém. Como pôr em cena esta absoluta teatralidade? Como
invocar o inevocável? Os algozes descobriam-se dedicados missionários da
rotina. As vítimas não tinham público. [...]
Sem dúvida que Cardoso Pires
desejou evitar a exploração teatral do tema da “tortura” e da “confissão”, como
se desinteressou também do laço dialéctico tão glosado entre “vítima” e
“carrasco”. É simbolicamente que a vítima ocupa o centro da cena e nunca como
parceiro de um jogo trágico. É a sua situação que se recorta numa luz de
sofrimento ou obstinada resistência, como um dado aceite pelo sujeito deles e o
funcionário da máquina anónima do terror de Estado. Na realidade a única
questão que preocupa Cardoso Pires em Corpo-Delito não é a da tortura, nem das relações
sadomasoquistas tantas vezes descritas entre o carrasco e a vítima, mas a da
inscrição do delito na
realidade-corpo-alma do sujeito dele. Cardoso Pires tem razão ao recusar para a
sua peça a conotação “política” que acode imediatamente ao espírito dada a sua
temática. O universo é o da Pide e os seus fantasmas, o momento o da Revolução
que chega para perturbar o mecanismo perfeito e “natural” da repressão, mas não
é enquanto mecânica diabólica e perversa que eles interessam Cardoso Pires nem
mesmo enquanto microcosmo patológico de um Regime totalitário. A Pide e o seu
cenário interessam-no como lugar superlativo de uma representação que pertence à essência da realidade
social. Não é um microcosmo, é um macrocosmo. No limite, é o Macrocosmo.
De quê? De uma sociedade de
reflexos [...].»
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