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terça-feira, setembro 01, 2026

Em Simultâneo: False Start | Frottage(s)



PAULO DA COSTA DOMINGOS, versos
CARLOS FERREIRO, desenhos


Lisboa, 2026
Barco Bêbado | viúva frenesi
1.ª edição
220 mm x 152 mm
28 págs. + 8 págs. desdobráveis
ilustrado com 9 desenhos a cor
acabamento com dois pontos em arame
exemplar novo
20,00 eur (IVA e portes incluídos)

Depois de 1.2.3.4.5.6.7.8.9 e de Caderno 37, ambos em 2024, e de Características, em 2025, temos, em 2026, os novos episódios da saga da vida quotidiana com 9.8.7.6.5.4.3.2.1 e o vertente
Em Simultâneo. Assim:

«tomem bem nota
não necessariamente velho ou gasto
de repente será o silêncio
o frio e a putrefacção
respostas sem princípio nem
fim
¿que pensou o primeiro ente vivo?:
ante a morte, a lacuna
¿como é?... – puxa-se para cima do cadáver
um pouco de terra
e recordação… recordação…
e cal»

Ou, este mimo:

«algo parecidos:
uns
crêem em Deus
e vão à Capela do Rato
outros
acreditam em Debord
e vão ao covil da IS
acossados pelo Fim
muitos
nada: juntam dinheiro»

pedidos para:
pcd.frenesi@gmail.com
telemóvel: 919 746 089   [chamada para rede móvel nacional]

quarta-feira, janeiro 28, 2026

9.8.7.6.5.4.3.2.1

 

PAULO DA COSTA DOMINGOS
fotog. Paulo Nozolino


Lisboa, 2026
Barco Bêbado | viúva frenesi
1.ª edição
220 mm x 155 mm
28 págs.
ilustrado
acabamento com dois pontos em arame
exemplar novo
15,00 eur (IVA e portes incluídos)

Completando um ciclo de quatro brochuras de versos inéditos – 1.2.3.4.5.6.7.8.9, Caderno 37 e Características – este 9.8.7.6.5.4.3.2.1 leva o retrato do horror e lama portugueses mais longe:

O poema transgride pela manhã
e cobre gloriosamente a trepadeira púrpura;
agora, que tudo e todos se odeiam,
na impenetrável aurora
sentem-se melhor.

A precisão maligna de impulsos
à astúcia de um pressuposto de luz
(pedaço a pedaço revelando a morte
e o nojo reprimidos)
declina o Tempo zodiacal:
a violenta partição do fluxo:
da Via Láctea ao vírus;
da epifania à produção em série;
do incesto ao tributo pago;
do continente à subida das ágüas;
da fala à sílaba;
da geografia à Arca; …

A gavinha do poema lambe caliça
num recanto de sombra, re-canta:
as escolhas e permutas na cidade-cluster.

De mão estendida o poema alastra.
Já sem núcleo, uma onomatopeia cindida.

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domingo, fevereiro 09, 2025

«por menos, só talvez no Biafra»

VITOR SILVA TAVARES
MÁRIO CESARINY
SÉRGIO LIMA

capa de Carlos Ferreiro

Lisboa, 2020
Barco Bêbado | viúva frenesi
1.ª edição [única]
190 mm x 130 mm
56 págs.
subtítulo: Troca de correspondência
ilustrado
exemplar novo
15,00 eur (IVA e portes incluídos)

Do Prefácio dos editores Emanuel Cameira e Paulo da Costa Domingos:
«Tem-se, por vezes, a sorte de ler aquilo que poetas e editores entre si trocam de mensagens. Fala-se de livros, fala-se do como dar a ler a oficina poética em páginas límpidas. Conspira-se sobre esboços a legar ao Futuro. Tem-se, por vezes, sorte. A sorte de testemunhar da fábrica, a sorte de sermos nós o autêntico destinatário, o alvo verdadeiramente cultural de preocupações e minúcias editoriais. Cuja implícita pedagogia é de agradecermos.
Aqui, numa toada que nos faz lembrar o bailado felino de dois gigantes criativos que se respeitam mutuamente e que, mutuamente, procuram eles (e encontram) o melhor terreno para a travessia dalguma arte vinda do outro lado do oceano. E se é um triângulo o que aqui temos, não é ele o buraco negro sorvedouro de matéria, mas, isso sim, o triângulo “amoroso” revelador do espírito de uma época culta irrepetível. Tirar o véu a cartas desta valia, que circunstâncias várias acabam, tantas vezes, por votar a uma invisibilidade perene – não fosse a acção dos que se dedicam, com obstinado entusiasmo, à preservação de arquivos e da memória histórica – favorece, pois, a possibilidade de enquadrar, de avivar protagonismos, de desenterrar detalhes dessa extraordinária aventura humana, poética e/ou editorial.
Em cena: Mário Cesariny, poeta-ex-editor proponente de um original inédito do poeta brasileiro Sérgio Lima, a Vitor Silva Tavares, editor-poeta e guardião do Subterrâneo Três. O livro a que tudo se refere – Aluvião Rei – sairia chancelado & etc, no mês de Setembro de 1992.
Da transcrição dos manuscritos, vai aproximativamente diplomática.»

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quarta-feira, setembro 11, 2024

Caderno 37

 

PAULO DA COSTA DOMINGOS
capa de Carlos Ferreiro


Lisboa, 2024
viúva frenesi
1.ª edição
220 mm x 155 mm
32 págs.
acabamento com dois pontos em arame
exemplar novo
15,00 eur (IVA e portes incluídos)

Uns poemas:

«¡Ah, pois! O mundo opaco
da comunicação de massas
é a ágüa-forte desta época
sob chuva de ácido nítrico
sobr’ a Corrente Subterrânea.


E o horizonte move-se
no poço das pupilas, recua
para o fundo interior de
abismos pouco esclarecidos,
sem ponto de vista, ainda.

*

Mais para sublime do que belo
este dia inteiro ao terror votado
só a mim pertence, assombroso
nos gritos, asteróide cioso
de colisão. Poderei então

a cada passo buscar
o novo agir das palavras
no cenário da guerra social
e, tal como Kepler, nunca
trocarei minha descoberta

por algum principado.

*

O sono trouxe-me aqui e abandonou-me,
as grandes decisões chamam o assombro
de prosseguir na vibrante pura inutilidade.

O facto é que falo com a alfazema
como se fosse tudo, mas não é tudo,
tudo, é um modo de dizer estou aqui,
alfazema
, para o que der ou vier.
[…]»

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1.2.3.4.5.6.7.8.9

PAULO DA COSTA DOMINGOS
ilust. James Whistler

Lisboa, 2024
viúva frenesi
1.ª edição
220 mm x 155 mm
48 págs.
ilustrado
acabamento com dois pontos em arame
exemplar novo
10,00 eur (IVA e portes incluídos)

Um poema… de passagem:

«[…]
dos que procuram comunicar
o nenhum-sentido; qüando desapareceu
que comunicar aos que
bebem por sondas
de sombras mediáticas

resta o toque o corte o espasmo
enxerto na carne na pele
num desenho a tinta-desejo
que rasura premissas

porém, sim: porém, escapa o Único,
reconfigura as tragédias do século
a seu fervor substantivo e
verbal


da parte de fora do poema
a tod’ a hora morre alguém
no frio
da fria montanha das
frias dúvidas

a tod’ a hora um arrepio fend’ a
certeza de que Tudo
vem acontecendo; nunca nada
terá acontecido

prata emocionável, vibrante
(o crime fútil, ou a batalha),
folha em sofrimento: nada se passou
no gelo da Grande Escala


o ô-dor da paixão
é a miragem robusta
do lôgro bem sucedido
num conto de fadas
que a si puxa em vão

lugar onde
anteriormente
falava alto
uma árvore

o estilhaço de vidro em rewind
a usura do Tempo (em espelho)
no auge do cinismo
diz-se «é a vida»


o vagabundo, que casou com
a ambulância zumbindo
mentiras subúrbio em trânsito
congestionado como um rumor
pelas costas, falece de Lua

os drogados, é o Sol o cimento
distantes estames como bruma
nas veias cérebros de Estado
em lama, corrigem o prumo

a dama d’ oiros, a infecta carne
coração na boca pouca ou nenhuma
decência com o dinheiro que
lava, faz-se de morta
[…]»


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sábado, novembro 04, 2023

Manobra Portuária

 

PAULO DA COSTA DOMINGOS
capa e ilust. Luís Rocha


Lisboa, 2023
Barco Bêbado | viúva frenesi
1.ª edição
210 mm x 130 mm
52 págs.
ilustrado
exemplar novo
17,00 eur (IVA e portes incluídos)

Alguns versos:

Rocha sem fòrma ou sombra,
procuro alguma perfeição
por mão artífice. Por outro lado,

ardo, um braço, uma tocha
com a ferocidade, a malícia cruel
de uma infância outra.

Escurece. Rostos dissolvem-se, negros,
observados a fògos-fátuos, vigilantes:
um sistema construído

para mútua espionagem e juízo.
Um sistema de absorção da coragem:
dor, suas causa e conseqüência.

¿Quem tem a chave da concha vazia
do dia-a-dia... onde se acolitam
conseguimentos por conta d’ outrem?

Frustrante. Apenas um esbôço
de movimento para diante
visto nos diferentes ângulos.

Mas uma ideia deve escrever-se
vezes sem conta, no caminho
d’ alguma moratória certeza.

Hesito, solitário de novo
no perigo da escrita
pelo campo das imagens

convencionais, à procura
do encontro e da superação
em sua honra: depauperando-me.

Campo do silêncio e da chama
ateáveis. ¿Quem tem a chave
de um longo e duro olhar?

*

A fôrça do passado: um cheiro
podre a pele engordurada que
arde degrau a degrau: cinza
operativa tal como placenta;

o passado, por aquilo a que fòrça
– acesso ou isolamento na desolação –
escraviza. A fôrça da oralidade
contra a escrita (a História) reverte

a verdade em dúvida, em histórias
de bairro entre cheiros gordos:
sujas dinastias de virilhas escondidas,
eventualmente. Na pequena lista

das coisas familiares e palpáveis
insinua-se o conceito (o quisto,
o trombo, a ordem) que tudo degrada
e mata. A fôrça do passado

empurra, empesta. Paga-se
devorado: nunca mais, o trabalho,
a folha de ordenado, que uma floração
(uma floração outra) obriga.

Mesmo qüando não arde, arde, e
morde o coração profundo: fòrça;
qüando poder-se-ia apenas respirar
olhos postos numa eterna doçura

sem azedume ou medo, murmúrio
apenas: as palavras acima da palavra
como segredos de fumo, como:
pérolas segregadas, imagens sem verbo,

que nada ferem, nenhuma denúncia,
ou remoque. A fôrça evocativa
do verde-esmeralda que resolve, infere,
a magia negra, de uma noite, no

silêncio trepidante… ¿Onde estás...
onde?... Algo se alia a algo nunca
conhecido.

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quinta-feira, janeiro 13, 2022

Urbe Sub Rosa – Carmes 1972-2021

 


PAULO DA COSTA DOMINGOS
capa de Patrícia Guimarães
ilust. (fotog.) Pedro S. Costa, Rui Baião e Telma Rodrigues

Lisboa, 1 de Fevereiro de 2022
Barco Bêbado | viúva frenesi
1.ª edição [única]
190 mm x 110 mm
694 págs.
ilustrado com cinco retratos do autor
exemplar novo
27,00 eur (IVA e portes incluídos)

Meio século de acção escrita. Toda a obra poética que o autor resolveu dar por salva da erosão: actualizada, revista e corrigida (à luz de um critério ortográfico idiossincrático). Também alguns versos inéditos a completam. Um livro que não foi escrito para a História da Poesia Lamechas e dos Sentimentalismos Masturbativos. O lirismo que o in-forma é o do veneno num saco de lacraus.
Três exemplos:

Na manhã incerta da guerra biológica
o sol que aquece o vidro da janela
resume todo o nosso plano táctico,
pontes de barcas nos ligam, o pingo
isócrono da torneira acorda o calendário,
destapa o imprevisto e sua fraqueza.

As paisagens atravessadas perderam
o horizonte, sob reversões políticas.
A falta de moral pretende à falta d’ ânimo
como duas noivas estéreis
subitamente fecundadas in vitro.

¿Que fazer... que fazer
com aquilo que se ignora?

*

Éramos uma casa edificada
nas traseiras da tortura,
com a serpente que güarda

o termómetro de mercúrio.
Da varanda víamos os jogos
de sociedade e a socialização

dos miúdos emporcalhados. Ali,
esporadicamente, o teatro de robertos
e o assobio do amola-tesouras, isso,

vinha cobrir, com sua música e ditos,
uivos dos prisioneiros do Estado e
as intrigas pendentes de mulheres-

-a-dias. Nosso amor corrompe
essa linha divisória no labirinto
estéril do tirano: do calabouço

já se disse qüase tudo, mas havia
a caserna, o liceu, o hospital
e o manicómio ali tão perto…

Fomos uma casa do passado
e, aqui chegados, não sei
qüal a próxima Galáxia.

*

Qüando por vezes a neblina
nos toca e, húmidos, procuramos
a boa saída do abismo,

e o chão cheira a uma terra
escondida na infância e sorrimos
com olhos como fògos-fátuos,

penso: que nunca nos separaremos,
mãe, tu munida de: «amo-te»,
e um pente encarnado e o peito

morno; e o ventre vibrante
desfeito em pérolas silabadas
como escandir estes pobres versos.

Nunca estive à tua altura,
lá onde a ordem perd’ a compostura –
¡que os muros-do-asilo rugem!

Eu só não tinha que haver partido;
deveríamos ter cortado logo ali
os pulsos, o cordão umbilical,

e celebrado um potlatch tal
queimando o nosso ópio
em absoluta negação de Tudo.


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sexta-feira, julho 16, 2021

Urbe Sub Rosa

 

PAULO DA COSTA DOMINGOS
capa de Maria Santos


Lisboa, 2021
viúva frenesi
1.ª edição
190 mm x 110 mm
100 págs.
exemplar novo
20,00 eur (IVA e portes incluídos)

Em plena desorientação assistida, por parte da generalidade da população portuguesa, quem sempre escreveu… não perdeu a mão! E assim, desde o início do ano 2020, Paulo da Costa Domingos (nasc. 1953) já criou e tornou públicos 4-livros-4 de versos que reflectem o tempo e as possibilidades que ainda restam aos entes vivos, como indivíduos e como comunidade:
Ilícito, Averno, Lisboa, Maio de 2020
Caligrafia Orográfica à Decifração Angélica, viúva frenesi, Lisboa, Outubro de 2020
Neve Sobre a Roseira, Barco Bêbado, Lisboa, Fevereiro de 2021
e agora… este Urbe Sub Rosa, de onde se extrai uma breve amostra:

O andamento cauteloso de aranha
por entre o espasmo dos noctívagos
apressados assobiando a táxis
no indecoro do trânsito. Varetas
de chapéus sussurradas na chuva
que a noite alta esconde e sèca
entre folhas de um herbário.

A platitude a que chegámos,
estação sem gente ou sonho,
com seu relógio, ponteiros partidos.
Uns, que partem para quem vem
partir à procura do sentido
no vazio de imagens televisivas
de um hiper-real desfocado.

Escapa: o tempo, o modo e o local
na velocidade a que se parte
sem haver sequer domado sílabas.

*

As conversas ganham vida própria
e o que ia sendo um rumor de festa
torna-se sólido, enorme, e sufoca-se
sozinho, apneia d’ um nó na garganta.

Os risos fundem-se no som único de ferro
à travagem sobre um carril, enqüanto
todos os olhares mudos nos envolvem,
como pontos de brilho, casas ainda acesas.

Não há que dizer como é noite,
como se chegou a isto: à urgência
de encerrar o expediente e a porta
e sair à força para o impasse e o vómito.

Nadamos, se nadar é isto: esgracejos.
A muralha de ditos e de saberes
lá continua, inalterável, como se
nunca eu tivesse passado por ali.

Diz a escritora e ensaísta Yvette K. Centeno acerca deste livro de Paulo da Costa Domingos:
«[...] Os seus livros circulam pela mão de quem lê, e não de quem fala, sem ter lido. É uma grande qualidade. [...]» (in Jornal Tornado, 30 de Maio, 2021)


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quinta-feira, novembro 05, 2020

Caligrafia Orográfica à Decifração Angélica

 

PAULO DA COSTA DOMINGOS
ilust. Vitor Silva Tavares (capa)

Lisboa, 2020
viúva frenesi
1.ª edição
190 mm x 110 mm
58 págs.
impressão digital
exemplar novo
tiragem de apenas 150 exemplares
15,00 eur (IVA e portes incluídos)

Prolongamento natural do livro Paisagem Durante a Batalha (de 2019), o vertente conjunto de versos, entre vários outros tópicos agressivos e inquietantes, marca uma posição inequívoca relativamente ao racismo e à vassalagem. Como escreveu o sociólogo Emanuel Cameira: «
Primeiro foi lá fora, nas terras para assentar padrões. Hoje, é cá dentro que se dá o saque, de molde a parecer que não, bem entendido... É ler os versos abaixo, de Paulo da Costa Domingos, uma visão nada restrita da poesia, fruto de uma consciência que vibra e reage, sem peias:

“Acabou-se o corso, a rapina
instalou-se no vale onde
a pestilência alastra.
Qüanto se plante ou deposite,
os mentores do Estad' o roubarão:
as aduelas da b-arca, os nomes,
o valor matricial.”»

Ou este outro exemplo:

Dia aziago. Qüando o negro
acenou da praia, e era a noite
que vinha com o branco vil.

Que fez de si o macaquinho
vestido ao abandono trespassado
pelo febrão colonial.

¡’Sperai! Caí no areal
e na hora adversa.

Aqui matou o Templo
a árvore do ouro.

Meu amor, meu amor
à beira-mágoa…


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quinta-feira, agosto 22, 2019

Paisagem Durante a Batalha



PAULO DA COSTA DOMINGOS
capa e ilust. fotográfica de Rui Baião

Lisboa, 2019
viúva frenesi
1.ª edição
19 cm x 11 cm
128 págs.
ilustrado
impressão digital
exemplar novo
tiragem de apenas 150 exemplares
15,00 eur (IVA e portes incluídos)

Um excerto:

Aí vêm os assuntos, a jardinagem.
¿Quando foi que tudo isto
aconteceu?... as palavras – cada qual
para seu lado; a separação.

•

Da árvore da seda
tombou a luxúria
sob a sombra das uvas,
coroa de espinhos
numa dívida à ternura:

estaríamos bem se
a estação límpida
sua luz cobre prolongasse
e o sabor das maçãs fosse
o estrume do êxtase.

Sabor das muitas maçãs
da árvore da seda.

•

Fulana e sicrana perderam-se
no jardim das delícias
sugadas por uma sombra
da filosofia, o idioma

em versos que rodopiam
com’ o aroma de zínias
significantes, um horizonte
pontilhado de gado

e por perto a ribeira...
a fresca ribeira do sexo.

•

A verdade do homem
que entra duas vezes no mesmo rio
escuro como vinho
e, mudado em lobo, desce
ao fundo de si, cai.
¿Mas será um homem, afinal, verdadeiro?
¿uma erva pujante de palavras?
que outro homem sangre…

•

Meia prece ia de oceano a oceano,
ninguém se apercebia
e o dia nascia para falar-nos
ao coração. Um coração
onde já sessenta noites pesam
de extinta frescura e música:
a melodia crassa do caminho
no campo de batalha.

Para o espectáculo do horror
de sessenta homens retoiçados
uma vara se ergue no centro
dos planos: rodeiam-na mulheres
com suas trouxas de roupa,
ribeira enxuta: um cristal.

Aguarda-se a outra meia prece. […]


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sexta-feira, abril 12, 2019

A Arte da Guerra de Mestre Sun



SUN DE WU
trad. e posf. Jorge Pereirinha Pires

Lisboa, 2019
viúva frenesi
1.ª edição (5.ª tiragem)
19 cm x 13 cm
56 págs.
acabamento com dois pontos em arame
exemplar novo
tiragem de 250 exemplares
9,00 eur (IVA e portes incluídos)

Posfácio do tradutor Jorge Pereirinha Pires:
Apesar de a obra ser há muito reconhecida, a oriente e a ocidente, como um dos tratados militares clássicos, nem sempre sucedeu o mesmo com Sun de Wu. Foram vários os académicos que, ao longo dos anos, puseram mesmo em questão a própria existência do autor enquanto figura histórica.
No entanto, os primeiros anais da história da China, que foram terminados no ano 91 a.C., identificam-no como tendo de facto nascido em Wu, no estado de Chi (actual província de Shantung) e sendo contemporâneo de Confúcio no final do Período da Primavera e do Outono (722-481 a.C.), com o qual se iniciou a chamada dinastia Zhou oriental. Nessa época, no que é o actual território chinês, coexistiam uma multiplicidade de estados semiautónomos, que durante alguns séculos se guerrearam de forma constante e foram assim constrangidos a sofisticarem o seu pensamento, actuação e métodos militares, face ao permanente dilema de triunfarem ou perecerem.
Tal como fizeram os sofistas da Grécia clássica, diversos filósofos, pensadores e professores itineravam entre os diversos estados, vendendo os seus serviços e conselhos. Sun de Wu (544-496 a.C.), que ficou conhecido para a posteridade com o título honorífico de Sun Tzu, ou «Mestre Sun», distinguiu-se como comandante e estratego militar ao serviço do rei Ho-lu de Wu (514-496 a.C.), a ele se devendo sucessos como o da campanha contra o estado de Chu – nesta, observando os conselhos de Sun, o rei de Wu conseguiu conquistar a capital do seu rival em meros seis anos.
O texto de A Arte da Guerra só deverá porém ter sido fixado após a morte do autor, provavelmente já durante o Período das Guerras Entre os Estados, quando de arte de cavalheiros a guerra passou a assunto para profissionais – fazendo crescer exponencialmente o número dos mercenários e o dos mortos nos campos de batalha. Este período concluiu-se em 221 a.C, quando o estado de Chin dominou o último dos seus rivais, reclamando para o seu soberano o título de Shi Huangdi – «Primeiro Imperador» – e dando a conhecer o território pelo nome que ainda hoje conserva: China, ou terra dos Chins.
Em suma, e na melhor das hipóteses, estaremos pois diante de um relato em segunda mão sobre aquilo que Sun de Wu teria realmente a dizer acerca da guerra. O facto de, ao longo deste tratado, ele ser sempre referido como «Mestre Sun» parece indicar que o texto haja sido compilado e fixado por terceiros, pessoas que o tinham em alta estima, como normalmente sucede entre os discípulos. Um manual feito pelos seus alunos? Não exactamente – existem razões para supor que o percurso da obra seja bem mais sinuoso.
Por exemplo, o tratado de Sun de Wu teve de sobreviver à Queima dos Livros, decreto promulgado pela corte Chin em 213 a.C., ordenando que toda a literatura representativa das diversas escolas filosóficas – e muito especialmente a literatura confuciana – fosse recolhida pelos administradores regionais e lançada à fogueira. Teve também de sobreviver às vicissitudes da transmissão oral – note-se que em vários trechos (e pese embora a rima ausente) a rítmica do texto parece adequada a uma mnemónica. E, em terceiro lugar, não podemos esquecer que o texto terá sido copiado, recopiado, organizado e reeditado por diversas gerações de estudantes.
Foi apesar destes e outros obstáculos que chegaram até nós os treze capítulos tão referenciados nas literaturas do oriente e do ocidente. Até há pouco tempo, o texto canónico era uma edição datada da dinastia Sung (960-1279) que serviu de base para todas as traduções entretanto efectuadas – sendo a edição de referência uma versão inglesa bilingue publicada em 1910 por Lionel Giles, conservador adjunto do Museu Britânico.
Mas quando, após a Revolução Cultural, a China retomou as prospecções arqueológicas, foi descoberto em 1972, em Yin Chue Shan, na actual província de Shantung, um exemplar da obra de Sun que, para além dos treze capítulos clássicos (aliás acrescentados em cerca de 2.700 caracteres), continha ainda fragmentos de cinco outros entretanto perdidos. Tendo sido encontrada entre diversos artefactos funerários datados de entre 140 e 118 a.C., esta versão será pois cerca de mil anos mais antiga do que aquela que até aqui se conhecia. Estes e muitos outros textos recuperados em Yin Chue Shan só começaram a chegar ao conhecimento dos estudiosos ocidentais quando as instituições arqueológicas chinesas retomaram a publicação periódica dos seus boletins. Dada a morosidade das operações necessárias à catalogação e decifração das numerosas tiras de bambu, o primeiro relatório mencionando a descoberta de A Arte da Guerra apenas foi publicado em 1974, tendo sofrido diversas actualizações posteriores, a última das quais em 1985.
Finalmente, em 1993 foram publicadas duas novas traduções para a língua inglesa que incorporam essas descobertas recentes. Na transposição para português, acompanhámos preferencialmente a de Roger T. Ames, também pela visão compreensiva que propõe: efectivamente, revela-se fútil investigar o sentido deste texto sem entender o contexto que o originou, e um período histórico em que, para serem bem sucedidas, as campanhas militares exigiam a utilização de todos os recursos disponíveis – incluindo os recursos filosóficos. Como escreve Ames, «a guerra, na medida em que seja filosófica, é uma filosofia aplicada». Para compreendermos os seus mecanismos, passemos pois em breve revista o universo em que ela opera.
Na cosmogonia chinesa, a ideia de ordem é imanente ao mundo e às coisas, e não algo ou alguém que veio triunfar sobre o caos primordial. E, tal como a ideia de ordem, as ideias de Bem, de Belo ou de Verdade – digamos, as essências da filosofia ocidental – não são entendidas como modelos imutáveis ou formas apriorísticas da razão, mas antes como produções (culturais, portanto), que estão eternamente sujeitas a renovações e actualizações. Porque o mundo é um campo de energia (chi) que se dispõe em várias concentrações e configurações, segundo os diferentes pontos de vista e as circunstâncias por eles determinadas. E é a configuração sempre alterada destas condições específicas que determina o nosso lugar em qualquer ponto do tempo, e nos atribui assim uma disposição e uma «forma».
O tao – a «via» – é aquilo que a cada momento se torna discernível e que torna transitoriamente coerente o lugar e o seu contexto. É o padrão de continuidades que nos conduz de um acontecimento a outros. «Conhecer» é portanto um acto performativo: é ser capaz de determinar e manipular as condições que afectem, em qualquer prazo, a configuração do nosso lugar. E o objectivo da existência humana consiste em coordenar os elementos que, neste ponto do tempo e do espaço, constituem o nosso mundo particular, gerando a partir deles a harmonia mais produtiva possível – aquela que possa maximizar as diferenças, e portanto as configurações. Como se vê, trata-se de uma função predominantemente estética, e centrípeta, uma vez que irradia de nós para o mundo.
Por isso, para os contemporâneos de Sun, uma pessoa de carácter superior, alguém com a capacidade de estabelecer a «harmonia», de identificar a «via», era alguém que revelaria essa qualidade em qualquer posição ou função social, incluindo portanto a de comandante militar. Porque aquele que detém a «via» cultiva o shih, ou «vantagem estratégica»: sabe antecipar o padrão de alteração das condições que definem a sua situação, e manipulá-lo para sua própria vantagem.
Eis porque a sua primeira prioridade é sempre a de evitar a guerra a todo o custo. Caso contrário, há que garantir a integridade das nossas forças; mover o inimigo, e não ser movido por ele; e actuar onde a vitória é certa. Sem esquecer que toda a vitória militar é sempre uma derrota. O luminoso Yang equilibra o sombrio Yin.

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domingo, janeiro 27, 2019

Ostras Doc. Interno


PAULO DA COSTA DOMINGOS
ÓSCAR FARIA
et alii

Lisboa, 2019
ed. viúva frenesi
1.ª edição [única]
19 cm x 13 cm
40 págs.
ilustrado
impressão digital
acabamento com dois pontos em arame
exemplar novo
tiragem de apenas 100 exemplares
9,00 eur (IVA e portes incluídos)

Brochura coligindo documentos internos da editora frenesi relativos à incidência cultural da publicação sucessiva, no catálogo da mesma, dos livros Subsídio, Suicídio, Ostras Geladas (anónimo, 1998), Uma «Bardamerda» de Edição. Breve Comentário Sobre um Dejecto Aparecido nas Livrarias (Paulo da Costa Domingos, 1999), Barbearia Tiqqun (Rui Baião, 2018), Romance Ardente (Manuel Fernando Gonçalves, 2018) e Sumo de Limão – Silva de Versos (Paulo da Costa Domingos, 2018). Brochura prevista como texto de apoio à exposição evocativa dos 40 anos da frenesi na Biblioteca Nacional (cancelada).
Henrique Manuel Bento Fialho (in Antologia do Esquecimento):
«Comecemos pelas ostras, que dão sempre boa entrada. Paulo da Costa Domingos (n. 1953), escritor, editor, antiquário de livros, organizou Ostras, Doc. Interno (Janeiro de 2019, viúva frenesi) enquanto relatório para distribuição pública “por ocasião da mostra evocativa dos quarenta anos da frenesi na Biblioteca Nacional”. Carimbo no cólofon informa: cancelada. Assim mesmo, sem mais. A frenesi é uma das relevantes casas editoriais portuguesas do século XX, nascida em relação de proximidade com a & etc de Vitor Silva Tavares. O legado impressiona qualquer amante de livros, não só pela poesia portuguesa e pelas traduções. Ao cuidado gráfico aliou-se, desde a primeira hora, uma atitude desafiadora com polémica garantida e alguns momentos hilariantes. A memória de um desses momentos foi agora recuperada, não fosse o olvido fazer das suas numa época que cada vez mais se exibe sem passado nem futuro.
Convém declarar acerca [do objecto que motiva este texto ser ele] testemunho e tomada de posição. Testemunho enquanto contributo para uma história que vale a pena inscrever e tomada de posição sobre o momento actual, o qual se afigura, pela vertigem dos acontecimentos e aceleração dos fenómenos, cada vez mais indiferente a um passado do qual não pretende colher exemplos nem lições. As consequências são óbvias, com meticulosas omissões e uma capacidade selectiva anormal a fazerem a cama a um estado de coisas que já nem pode ser acusado de revisionista. Porque não revê nada, é pura rasura ao serviço da ignorância e, por consequência, de poderes hegemónicos a quem essa ignorância não só convém como serve. Se assim é a nível político e social, poderia não o ser no mundo das letras?
Precisamente contra tais poderes hegemónicos surgiu há 40 anos e foi crescendo até hoje a editora frenesi, agora viúva frenesi. Do catálogo, um dos livros que deu que falar foi o anónimo Subsídio, Suicídio, Ostras Geladas (frenesi, Março de 1998). A questão da autoria era ali omissa com o propósito específico de deixar à nora a crítica literária, objectivo alcançado como o comprovam as recensões agora elencadas por Paulo da Costa Domingos. O autor desconhecido aguçou a imaginação, chegando a haver quem fizesse apostas. Sucede que o autor eram três: “Os três-autores-três, que haviam escrito e sequenciado o livro, constavam entre os mais mal tratados, ou reduzidos pelo silêncio, de todo o catálogo da frenesi”. Lidos cegamente passaram a ter qualidades que olhos esbugalhados jamais haviam descortinado. Tem graça o divertimento, por ter conseguido “ridicularizar o cientismo crítico literário”. Sabe-se hoje, por via da publicação de três livros na viúva frenesi de 2017, que os três implicados no objecto lírico não identificado eram Rui Baião, Manuel Fernando Gonçalves e Paulo da Costa Domingos.
[...] O excelente ensaio de Óscar Faria que encerra Ostras, Doc. Interno é, aliás, um forte contributo para a contextualização do divertimento nestas matérias. Ao invés da mera provocação inconsequente e esvaziada de conteúdo, temos [nesta publicação exemplo] de um esforço ao serviço da desmitificação. [...] Nas Ostras, a desmitificação opera-se numa primeira instância ao nível da autoria e, por consequência, resulta numa desmitificação da imprensa cultural: “Ao propor um livro escrito por autor anónimo, a frenesi operou um gesto dirigido sobretudo para dentro do meio literário, mais especificamente o das recensões de livros de poesia, pois sem autor, sem uma biografia, um contexto, o que resta para dizer?” (p. 26)
O desafio é exactamente este, percorrer caminho na direcção do que resta. E o que resta para lá do Autor, essa marca que pode ser apagada pelo anonimato, pela heteronimia ou pela pessoa colectiva, é a palavra na sua máxima expressão, expurgada de rosto, palavra cortante, em estado bruto, palavra cruel, selvagem, pura palavra. Seria de supor que o debate crítico se desse apenas com esse texto, não carecendo de fotografia ilustrativa. Seria de supor do crítico uma coragem no confronto com o desconhecido que ele de todo não tem. Como em terra de cegos quem tem olho é rei, afasta-se de todo a leitura cega. Há reinados de um só olho que poucos estão dispostos a perder, sendo múltiplas e diversas as tácticas de conservação e os escudos protectores. Que façam bom proveito.»

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Barbearia Tiqqun [junto com] Romance Ardente [junto com] Sumo de Limão




RUI BAIÃO
MANUEL FERNANDO GONÇALVES
PAULO DA COSTA DOMINGOS

Lisboa, 2017
ed. viúva frenesi
1.ª edição [única, todos]
19 cm x 13 cm
36 págs. + 56 págs. + 36 págs.
impressão digital
acabamento com dois pontos em arame
exemplares novos
tiragem de apenas 150 exemplares cada
9,00 eur (cada, IVA e portes incluídos)
20,00 eur (lote dos 3, IVA e portes incluídos)

3 livros de versos, 3 autores com nome firmado, 1 manifesto literário.

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sexta-feira, agosto 31, 2018

Dizimar


PAULO DA COSTA DOMINGOS
capa de Carlos Ferreiro

Lisboa, 2018
ed. viúva frenesi
1.ª edição
190 mm x 130 mm
20 págs.
impressão digital
acabamento com dois pontos em arame
exemplar novo
tiragem de apenas 150 exemplares
9,00 eur (IVA e portes incluídos)

«Este lugar existe, fica
onde as soluções novas
se assemelham ao deserto
dos antigos problemas.

Diz-se: malha urbana,
o que desde logo
diz tudo; aí sorri-se
para as câmaras,

ou muito muito parvo
ou um pouco amedrontado:
¿será que esta camisa-de-forças
me assenta bem?... ¿e a cor?

A pista arrefeceu, estetize-s’o delírio,
neste baldio que as forças-da-ordem
nos deixaram à sua vil passagem:
o Vale das Artes, o Jardim dos Poetas.»

Paulo da Costa Domingos (nasc. 1953), autodidacta, escritor, editor, livreiro-antiquário. Vasta é a sua obra (consulte-se):

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quinta-feira, agosto 30, 2018

Jocasta


PAULO DA COSTA DOMINGOS
capa sobre fotografia de Rui Baião

Lisboa, 2018
ed. viúva frenesi
1.ª edição
19 cm x 13 cm
16 págs.
impressão digital
acabamento com dois pontos em arame
exemplar novo
tiragem de apenas 150 exemplares
9,00 eur (IVA e portes incluídos)

Trata-se do mais recente livro de versos do autor, que lhes acrescentou uma Nota Marginal:
«Alguns viram em Antígona a rebelde exemplar, que, ao opor-se à lei do tio, o expõe e à tirania do seu poder. É mentira. Trata-se de uma daquelas avaliações precipitadas, parcas de informação e discernimento, não raro germinadas nas mentes marxistas pós-leninismo. André Bonnard, o principal causador disso, foi ele mesmo um obediente propagandista de Estaline, admirando-lhe a sociedade ferreamente hierarquizada, totalitária, edificada em cima do cadáver dos sovietes.
Jocasta – mãe de uma Antígona filha do incesto – foi a autêntica figura subversora de uma ordem, não meramente no que é político, mas invertida, rasgada pelo ataque radical à estrutura da família enquanto átomo do corpo social. Jocasta, a inconveniente segundo os padrões morais vigentes nas sociedades ditas civilizadas, acabará morrendo, também, de certo modo emparedada, como a filha, sem fuga possível, enforcando-se. Dizem uns que sob o peso da culpa, dizem outros que por morte inglória de seus dois filhos.
Semelhantemente à Jocasta grega, até na desordem disseminada por amor a um jovem poeta, a Jocasta portuguesa morre solitária, num campo onde grassa o suicídio barbitúrico, o cancro, a corrupção e o alcoolismo da sua prole. Solitária e destroçada pelo veneno continuamente inalado das drogas que toda a vida facultou aos doentes e aos doridos.»

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