domingo, janeiro 27, 2019

Ostras Doc. Interno


PAULO DA COSTA DOMINGOS
ÓSCAR FARIA
et alii

Lisboa, 2019
ed. viúva frenesi
1.ª edição [única]
19 cm x 13 cm
40 págs.
ilustrado
impressão digital
acabamento com dois pontos em arame
exemplar novo
tiragem de apenas 100 exemplares
9,00 eur (IVA e portes incluídos)

Brochura coligindo documentos internos da editora frenesi relativos à incidência cultural da publicação sucessiva, no catálogo da mesma, dos livros Subsídio, Suicídio, Ostras Geladas (anónimo, 1998), Uma «Bardamerda» de Edição. Breve Comentário Sobre um Dejecto Aparecido nas Livrarias (Paulo da Costa Domingos, 1999), Barbearia Tiqqun (Rui Baião, 2018), Romance Ardente (Manuel Fernando Gonçalves, 2018) e Sumo de Limão – Silva de Versos (Paulo da Costa Domingos, 2018). Brochura prevista como texto de apoio à exposição evocativa dos 40 anos da frenesi na Biblioteca Nacional (cancelada).
Henrique Manuel Bento Fialho (in Antologia do Esquecimento):
«Comecemos pelas ostras, que dão sempre boa entrada. Paulo da Costa Domingos (n. 1953), escritor, editor, antiquário de livros, organizou Ostras, Doc. Interno (Janeiro de 2019, viúva frenesi) enquanto relatório para distribuição pública “por ocasião da mostra evocativa dos quarenta anos da frenesi na Biblioteca Nacional”. Carimbo no cólofon informa: cancelada. Assim mesmo, sem mais. A frenesi é uma das relevantes casas editoriais portuguesas do século XX, nascida em relação de proximidade com a & etc de Vitor Silva Tavares. O legado impressiona qualquer amante de livros, não só pela poesia portuguesa e pelas traduções. Ao cuidado gráfico aliou-se, desde a primeira hora, uma atitude desafiadora com polémica garantida e alguns momentos hilariantes. A memória de um desses momentos foi agora recuperada, não fosse o olvido fazer das suas numa época que cada vez mais se exibe sem passado nem futuro.
Convém declarar acerca [do objecto que motiva este texto ser ele] testemunho e tomada de posição. Testemunho enquanto contributo para uma história que vale a pena inscrever e tomada de posição sobre o momento actual, o qual se afigura, pela vertigem dos acontecimentos e aceleração dos fenómenos, cada vez mais indiferente a um passado do qual não pretende colher exemplos nem lições. As consequências são óbvias, com meticulosas omissões e uma capacidade selectiva anormal a fazerem a cama a um estado de coisas que já nem pode ser acusado de revisionista. Porque não revê nada, é pura rasura ao serviço da ignorância e, por consequência, de poderes hegemónicos a quem essa ignorância não só convém como serve. Se assim é a nível político e social, poderia não o ser no mundo das letras?
Precisamente contra tais poderes hegemónicos surgiu há 40 anos e foi crescendo até hoje a editora frenesi, agora viúva frenesi. Do catálogo, um dos livros que deu que falar foi o anónimo Subsídio, Suicídio, Ostras Geladas (frenesi, Março de 1998). A questão da autoria era ali omissa com o propósito específico de deixar à nora a crítica literária, objectivo alcançado como o comprovam as recensões agora elencadas por Paulo da Costa Domingos. O autor desconhecido aguçou a imaginação, chegando a haver quem fizesse apostas. Sucede que o autor eram três: “Os três-autores-três, que haviam escrito e sequenciado o livro, constavam entre os mais mal tratados, ou reduzidos pelo silêncio, de todo o catálogo da frenesi”. Lidos cegamente passaram a ter qualidades que olhos esbugalhados jamais haviam descortinado. Tem graça o divertimento, por ter conseguido “ridicularizar o cientismo crítico literário”. Sabe-se hoje, por via da publicação de três livros na viúva frenesi de 2017, que os três implicados no objecto lírico não identificado eram Rui Baião, Manuel Fernando Gonçalves e Paulo da Costa Domingos.
[...] O excelente ensaio de Óscar Faria que encerra Ostras, Doc. Interno é, aliás, um forte contributo para a contextualização do divertimento nestas matérias. Ao invés da mera provocação inconsequente e esvaziada de conteúdo, temos [nesta publicação exemplo] de um esforço ao serviço da desmitificação. [...] Nas Ostras, a desmitificação opera-se numa primeira instância ao nível da autoria e, por consequência, resulta numa desmitificação da imprensa cultural: “Ao propor um livro escrito por autor anónimo, a frenesi operou um gesto dirigido sobretudo para dentro do meio literário, mais especificamente o das recensões de livros de poesia, pois sem autor, sem uma biografia, um contexto, o que resta para dizer?” (p. 26)
O desafio é exactamente este, percorrer caminho na direcção do que resta. E o que resta para lá do Autor, essa marca que pode ser apagada pelo anonimato, pela heteronimia ou pela pessoa colectiva, é a palavra na sua máxima expressão, expurgada de rosto, palavra cortante, em estado bruto, palavra cruel, selvagem, pura palavra. Seria de supor que o debate crítico se desse apenas com esse texto, não carecendo de fotografia ilustrativa. Seria de supor do crítico uma coragem no confronto com o desconhecido que ele de todo não tem. Como em terra de cegos quem tem olho é rei, afasta-se de todo a leitura cega. Há reinados de um só olho que poucos estão dispostos a perder, sendo múltiplas e diversas as tácticas de conservação e os escudos protectores. Que façam bom proveito.»

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