domingo, agosto 25, 2024

A Peste



JOAQUIM LEITÃO

Lisboa, 1901
Livraria Central de Gomes de Carvalho – Editor
1.ª edição
185 mm x 126 mm
XVI págs. + 228 págs.
subtítulo: Aspectos moraes da Epidemia Nacional
encadernação da época (muito provavelmente editorial*) em tela encerada com gravação a seco nas pastas e a ouro na lombada
[pouco aparado, sem capas de brochura]
exemplar muito estimado; miolo limpo
ostenta colado no verso da pasta anterior o ex-libris de J. G. Mazziotti Salema Garção e no frontispício selo branco do mesmo
130,00 eur (IVA e portes incluídos)

Joaquim Leitão (1875-1955), escritor e historiógrafo, durante muitos anos secretário-geral da Academia das Ciências de Lisboa, com vasta obra publicada, em que são relevantes os seus dois livros acerca da queda da monarquia, D. Carlos, o Desventuroso e Os Cem Dias Funestos, mas também a monografia O Palácio de S. Bento. Uma passagem significativa da introdução de A Peste:
«[...] Os fidalgos veem-se reduzidos a não usar o titulo por não poderem pagar os direitos de mercê.
O povo vae a caminho de não poder usar a bandeira da nação por não poder pagar os juros da sua divida externa.
Como os fidalgos tambem, o povo portuguez, a quem a governação esbanjou com concubinas e tipoias de espelhos a legitima da India, do Brasil e lhe não pôde já entregar os seus vinculos d’Africa por o descuido na cobrança os ter feito caducar, – o povo, que não tem uma educação mundana a disfarçar-lhe as emoções, é logicamente, legalmente, um povo triste, que não sabe rir, que não sabe correr, que para defender-se d’algum safanão faria, como unico esforço, o que fazem as creanças doentes: tapar a cara com os braços e receber aninhadas a tapona.
Todo o homem nascido dentro de Portugal, n’este momento historico, por mais saudavel e forte que seja, jámais aprenderá como se dá uma gargalhada.
A geração do sr. Eça de Queiroz ainda conseguiu esboçar um rictus, que deu a ironia das Farpas.
A geração de Fialho d’Almeida já vinha com os dentes ferrados nos beiços, e a sua ironia já é pungente, não sorri por crevetismo, ri nas bochechas do idolo com a violencia de quem desfeiteia por odio e não por garotice.
Depois é que viemos nós, que já nem isto podemos fazer.
A Peste não teve, pois, a animal-a o brilho mundano d’uma ironia de salão, e se quizesse ser demolidora teria de seguir as crispações dos Gatos.
Mas, contra isso tudo conspirava. Os homens, que Fialho d’Almeida atacou com uma violencia e uma independencia inquebrantavel e nobre, ou porque não haja outros melhores ou porque este paiz já não tem laivos de vergonha, são ainda os mesmos que nos governam, que nos representam, e que ainda nos arruinariam, se já não nos houvessem comido tudo quanto nos legaram os avósinhos.
Isto bastava para que não fôra meu empenho nem proposito o apear heroes de opereta e jogar o pim-pam-pum alvejando bonecos a buchas de papel. Depressa me convenci de que a obra demolidora era por agora inutil. O vocabulo pamphletario desbotara-se, a sua intensidade relaxara, e ao chamar-se-lhes ladrões ou chibos, os homens já não córavam nem tremiam. O papel do escriptor revelava-se definitivamente doutrinario, e a tarefa dos demolidores desempenhar-se-hia com outras armas. A penna de fórma alguma convinha: talvez a dynamite. [...]»

* A obra foi originalmente comercializada em fascículos («pamphletos mensaes»), e já aparece, no vertente volume, nas «obras do mesmo auctor», com indicação de preço para a modalidade encadernada.

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