Lisboa, 1978
Edições «O Jornal» – Publicações Projornal, Ld.ª
1.ª edição [única]
218 mm x 300 mm (oblongo)
144 págs.
ilustrado
exemplar em muito bom estado de conservação, inclui a caixa-estojo editorial em cartão com cromo colado numa das faces; miolo irrepreensível
85,00 eur (IVA e portes incluídos)
João Paulo Cotrim, no seu João Abel Manta – Caprichos e Desastres (Assírio & Alvim / El Corte Inglés / CML – Museu Bordalo Pinheiro, Lisboa, 2008), numa feliz alusão aos horrores desenhados por Goya, põe o vertente livro no lugar que lhe é devido na história da caricatura nacional:
«[...] A melhor fotografia daquela época foi feita, à la minute, uma década mais tarde, pelo próprio com confessado “alívio freudiano”. As Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar são extraordinário romance gráfico. Manta chamou-lhe caricaturas para sublinhar um carácter popular. E por isso deviam ter circulado em gravuras coleccionáveis à boa maneira do século XIX. Para o bom uso das novas gerações, cruzaria assim a tradição da pintura histórica com a intervenção popular: Brecht em colecção de cromos. É fragmentado o texto deste romance silencioso sobre aqueles anos em que, como sugere a capa, o horizonte apenas se descobria por entre dentes de aço. No espaço de três Salazares (jovem, velho, desaparecido), Portugal vem andrajoso e imponente, como Camões, ocupar o lugar de personagem principal.
Haverá, por certo, ficção e ensaio a reconstituir com qualidade e sabor aquela época e imaginário, mas só as caricaturas de Manta somam ao peso da pintura a espessura do romance e a amarga subtileza da experiência vivida.
Numa estranha procissão silenciosa, onde as palavras mais não são do que um título ou nome, vão passando pela página os actores e cenários daqueles anos (Salazar e a província, marialvas e generais, guerra e povo, amor, desporto, folclore e estátuas), mas também figurinhas de hoje (por exemplo, amor, desporto, folclore e estátuas) e os mitos de sempre (Fátima, Camões, Santo António, além do amor, desporto, folclore e estátuas). Cada página fixa num quadro de cores baças, de entre as quais sobressai um prateado sonoro, uma cena quase sempre macabra, miserável ou risível. [...] As figuras como que se abandonam perante os nossos olhos numa cena que é a última de um qualquer acto. Uma fala da ruralidade, a outra de religiosidade, esta de política e aquela de cultura. Muitas falam de Salazar, todas falam de Portugal. Nos anos de Salazar, a última das cenas é a primeira deste livro: o lento envelhecimento do ditador à janela de um palácio. [...]»

